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15 de mar de 2010

DOM ADELINO, por Sanderson Negreiros - Escritor

Morreu como sempre vivera: na mais absoluta solidão que a pobreza enriquece, ungido pelo único dom que nunca o deixou desesperado — o dom da presença de Deus, que o tornava severo praticante das duras leis que faziam, antigamente, de um sacerdote, o exemplo do ascetismo parecido com o dos padres do deserto. Nos seus instantes finais, horas longas e pesadas, seu espírito deve ter sido assistido pela música de Bach, que ele cultivava nas noites sertanejas, em meio à nostalgia dos dobrados de Felinto Lúcio. Nesses anos derradeiros de vida, havia se recolhido à cidade de Carnaúba dos Dantas, dentro do Seridó mais profundo.
Lembro-o reitor do Seminário de São Pedro, hierático e silente como verdadeiro monge da Idade Média, recém-convertido pelo Concílio de Trento. Gerações inteiras passaram pela influência da curva parabólica de suas ordens inflexíveis. Recebeu-me ele aos nove anos de idade, quando subi os degraus do Seminário para encontrar um mundo inteiramente novo, e ao deixar para longe minha casa, minha infância, minha mãe, já doente, e meu pai, inconformado com o destino que eu inaugurava de maneira imprevisível. Trazia vivo na retina e no lume dos olhos embaciados o retrato materno, de a Mãe já fulminada por uma doença que a deixara paralítica, ainda moça e espirituosa, nos seus 40 anos de idade. A orfandade não tem nome: tem sobrenome.
Ao subir o último degrau do casarão, olhei para trás, ainda criança, emudeci, e era como se chorasse. Enfrentei o desconhecido na clausura que me aguardava; e iniciava a necessária experiência desvelada que, como sempre, destina-se somente à prece e ao estudo. Enfrentei uma vida monástica. O Seminário sobrevivia da pobreza e de favores, certamente muitos deles advindos dos arcanos misteriosos e desconhecidos. Era tudo regido por uma disciplina espartana Ouvia-se o silêncio, até o mais longínquo, no vento despertando os pássaros nas madrugadas do Tirol. Os seminaristas de então jogavam futebol de batina e não podiam sequer usar relógio de pulso. Tangiam-se os dias em clima de duendes, verdadeiro realismo fantástico. Tanta exigência, na formação dos chamados levitas do Senhor, transformava a religião no heroísmo do cotidiano. E ao reger essa orquestra, em vigilância diuturna, estava ele, o então Cônego Adelino, o reitor severo a nos acordar às cinco horas da manhã, determinando, com seus gestos mansos, que os seminaristas se encaminhassem liturgicamente para a missa que durava uma eternidade. Vivíamos calados e em filas, aspergidos pela água benta do silêncio e da postura que deviam ser irrepreensíveis. Ninguém podia sair do figurino, desde as longas genuflexões diante do Santíssimo Sacramento do altar, até a repetição mecânica das orações todas recitadas em latim. Como sempre, valia mais a aparência que compunha uma paisagem de autômatos.
De repente, para surpresa de todos nós, o Cônego Adelino nos deixou, para consagrar-se bispo e foi reger a diocese de Caicó. Sua carreira de pastor seguiu para apascentar as ovelhas tresmalhadas de várias outras dioceses. Até que a idade avançada o fez bispo resignatário; e volta em definitivo ao seu chão sagrado — a seridoense Carnaúba dos Dantas. Foi aí que me reaproximei dele, em algumas viagens que fizemos, juntamente com o então governador Tarcísio Maia, para visitá-lo, a ele e ao genial Felinto Lúcio, em uma Carnaúba dos Dantas que ele transformou em porto final de sua aventura de viver, marcada pela decepção da condição humana, mas atento à vocação de sempre ser o vigia inaudito da presença do Deus a que se consagrava.
Reencontrava eu, então, não mais o reitor sisudo da década de 50, mas o homem sempre virtuoso, afável, compadecido de ternura, na total pureza de ser e conviver — até tornar-se ele o escritor e historiador dos fastos seridoenses, o poeta de alta sensibilidade, capaz de traduzir e ensinar Virgílio, Ovídio e Horácio, todos os clássicos da literatura latina, com permanente atenção e sabedoria humanistas. Guardava na voz desprovida de qualquer arrogância, na longitude da paciência, o sinal do que muito já contemplara em meditações e vislumbres místicos. Tudo indicava não ter mais motivos para as ilusões empobrecedoras com que a vida muitas vezes festeja nossa vaidade.
No meu estar de novo com ele, ao seu lado, tantos e tantos anos passados, voltava a ouvi-lo como se regesse, em pleno meio-dia do Seridó, naquele calorão despiciendo, a música dos seus compositores prediletos. E lia a poesia latina como superação do cotidiano imbatível. Chorou, certa vez, quando lhe lembrei a beleza do luar, filtrando-se no chão sob a copa das antigas árvores do Seminário de São Pedro. E, hoje, o velho seminário é um navio adernando como fantasma burocrático, com seu belo campo de mangueiras senhoriais, destruído por construções inadmissíveis e constrangedoras.
Mesmo menino, entre meus 9 e 13 anos de idade, devo-lhe duas coisas importantes: ensinara-me a amar a música clássica, que ele fazia questão de que a ouvíssemos todos os dias, em audições como se fossem aulas sagradas — e despertou-me para a contemplação das noites. Armava na varanda mais alta do Seminário uma velha luneta, para que pudéssemos ver e ouvir a lua cheia, desatando-se nos morros iluminados do Tirol. Tudo isso fez de mim um ser religioso, mais do que todos os retiros espirituais obrigatórios, onde se impunha a mudez absoluta, virtualizada por prédicas, pregações incansáveis, recitações de terços e rosários diários e penitentes. Desde aí, o céu noturno do Tirol me aproximou mais de Deus do que toda a teologia formal e ortodoxa, que nunca preencheu minha fome natural de transcendência, a busca do Mais Alto, na realização de um projeto acima do simplesmente material, que fosse realista e me amparasse. Agora, recomponho seu perfil de saudade, livre de dogmas e batinas, com um solidéu de estrelas, verdadeiramente a caminho do Ser. Dom José Adelino Dantas. (Prefácio para um livro sobre figuras históricas do Seridó, a ser publicado pelo Sebo Vermelho, de autoria de Dom Adelino). SN.
Artigo publicado no jornal TRIBUNA DO NORTE, em 14/03/2010

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