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6 de jan de 2010

Deus ultrapassa tudo o que podemos imaginar...

Gostaria de dirigir estas linhas a todos os jovens, garotas e rapazes. Uma garota talvez possa compreender-me melhor a partir do interior, se infelizmente lhe aconteceu uma experiência como a minha. Que estas palavras sejam para você uma mensagem de esperança.
Partilhando com vocês essa passagem da minha vida gostaria, antes de tudo, de dar graças a Nosso Senhor, que me salvou e me permitiu renascer, pelo seu Amor que ultrapassa todo amor. Gostaria também de gritar: “Respeitem o outro no seu corpo, na sua intimidade. Respeitem a si mesmo também”.
Tenho vinte e oito anos. Tinha treze quando me aconteceu o que vou lhes contar. Quinze anos se passaram e eu nada esqueci. Todo o “filme” desse fato que dilacerou a minha vida está gravado em mim para sempre. Óbvio, pois foi escrito não sobre a “rocha”, mas sobre “argila em formação”, numa página branca, virgem. Mas agora, através do amor de Jesus, tudo se transformou.
Aos treze anos eu ainda era uma “menininha”. Feliz da vida, sem problemas, querendo amar o mundo inteiro, mas querendo amar a Deus mais que tudo, com toda a força do meu pequeno coração. Utopia? Não, não creio. É a ingenuidade das “crianças”. Possível, então? Sim, ainda hoje eu penso, apesar da dureza deste mundo, graças à força de Deus.
Frequentemente eu dizia a mim mesma: “Eu quero permanecer pura até o casamento. Entretanto, eu sentia no coração um chamado para amar só a Deus durante toda a minha vida. Parecia-me que só Deus poderia saciar toda a sede de amor que havia em mim. E eis que, de repente, numa esquina, sou, gratuitamente e sem razão, vítima de toda a violência de um ser humano. Era uma sexta-feira, uma hora de torturas sexuais, de gestos, um lugar, gravados para sempre. Palavras como: “Eu quero matá-la”, que ferem atrozmente. Eu estava encurralada entre algumas tábuas e o muro de um cemitério. Ninguém para socorrer-me. Como eu gostaria de ir ao encontro daqueles mortos do outro lado do muro... O que pode fazer uma menina de treze anos para se defender da maldade de um homem de vinte ou vinte e cinco anos? Nada. Eu desejava o nada. Aquele Jesus que havia feito um apelo ao meu coração ficara surdo de repente? Por que tudo aquilo? Por que tanta violência? Quantas perguntas fiz a mim mesma... Durante onze anos! Onze anos, como é longo! Creia-me. Principalmente quando você carrega esse peso sozinha...
Quando cheguei em casa – meus pais estavam ausentes por alguns dias –, eu só tinha uma idéia na cabeça: a morte. Tentei o suicídio... Acordei após ter dormido por dois dias. Mas a idéia do suicídio não me deixava e não me deixaria tão cedo. Eu não era a mesma pessoa. Havia um “antes” e havia um “depois”. Esse “depois”, eu o detestava de antemão. Eu me detestava. Eu me tornara um lixo. Um corpo e um coração sem gosto pela vida. Um coração? Não sei se eu ainda possuía um. Todo amor que ele até aí guardara transformou-se em ódio contra o ser humano, principalmente contra o sexo masculino.
Então, por que continuar a viver se eu não era mais nada? Apenas a morte poderia libertar-me. Era o que eu pensava. Essa idéia me perseguia com tenacidade. Os dias corriam sem me trazer nada de novo. Jesus, a fé, tudo em que até então eu crera de repente evaporou. Não havia mais amor em mim. Por ninguém. Nem por mim. A segunda tentativa de suicídio também fracassou. Então, forjei uma barricada em torno de mim. Essa barricada, eu a queria o mais resistente possível para que ninguém, nunca, encontrasse nela uma brecha. Meus pais não entenderam a mudança. Meu caráter foi se tornando cada vez mais duro. Eu me sentia mal, muito mal por estar assim, mas era quase contra a minha vontade. Eu era vítima e me sentia culpada. Quantas vezes, durante o sono, revivi a cena do estupro. Era indelével. Gostaria de ter matado aquele homem.
Não era mais necessário que me falassem de Deus; eu projetava nele toda a minha tristeza, todo o meu desgosto. Era quase culpa dele o que me acontecera, pois Ele não tinha ido me libertar. Agora, eu compreendo como durante todo esse tempo Ele sofria comigo, pois Deus é amor. Ele nos mostra isso todos os dias, mostrou-o na minha própria vida.
Os anos passaram. Pouco a pouco eu recomecei a rezar. Sem perceber, creio, pois eu me sentia terrivelmente só. Eu procurava alguém a quem falar. Hoje posso dizer que nunca, nem por um segundo, o Senhor largou a minha mão. Fui eu que larguei a dele. O Senhor podia restituir-me a pureza que eu perdera sem querer. Apenas Ele podia me recriar.
No final desses onze anos de desgosto, de tristeza, encontrei um padre com quem pude me abrir. Através do sacramento da reconciliação, através de seu coração, pude dar para Jesus todo o ódio acumulado, e pouco a pouco, com a ajuda do Senhor, recuperei a paz. Jesus tinha encontrado uma brecha na barricada que eu havia levantado com a força dos meus braços. Suavemente, mas com firmeza, Ele fez seu trabalho de Salvador. Ele não parava de chamar-me pelo meu nome. Para Ele eu era como sempre uma criança. Eu era como antes. Em alguns meses a barricada desmoronou. O Senhor só desejava uma coisa: poder morar no meu coração para me dar incessantemente o seu amor. Ele repetia sem cessar: “Você é única aos meus olhos e eu a amo” (Is 43,4).
Eu precisava deixar-me amar. Mas isso era muito duro para mim. Eu precisava tornar-me criança outra vez. Santa Teresa do Menino Jesus ajudou-me muito: “Quanto mais você for pobre, mais Jesus a amará. Se você se afastar Ele irá longe, bem longe, buscá-la...”.
Compreendi também que no madeiro da cruz Jesus havia assumido todos os meus sofrimentos. Esse sofrimento oferecido permitiu que, por minha vez, pouco a pouco, eu lhe oferecesse o meu. Isso não aconteceu num só dia. Foram necessárias horas e horas de doçura, de delicadeza, de paciência por parte do Senhor para reabilitar-me comigo mesma.
Eu readquiria a alegria de viver. Um dia, ao assumir o meu serviço no hospital, tive uma enorme surpresa. Diante de mim, num leito de doente... ele! Aquele rapaz que tanto me fizera sofrer, que desejara matar-me, contra quem secretamente eu alimentara um ódio incrível, estava lá, naquele leito de hospital, sofrendo, pobre e enfraquecido.
Durante onze anos, mesmo sem revê-lo, seu rosto ficara gravado em mim e agora ele surgia novamente na minha vida. Passado o choque da surpresa eu compreendi que, teoricamente, deveria cuidar dele. Na prática, aquilo parecia estar acima das minhas forças. Ele estava lá, nas minhas mãos, à minha disposição, esperando – como doente – que eu o aliviasse.
Então, todo o ódio que eu sentia por ele e que começava a atenuar-se, tornou-se mais forte, mais lancinante, mais presente. Eu podia vingar-me: eu podia matá-lo. E não se tratava de palavras vãs. Eu poderia muito bem injetar-Ihe algo em dose mortal. Pensei nisso. Desde o início. Pensava nisso à noite, em casa, sabendo que no dia seguinte o reencontraria. Eu pensava que, matando-o, me sentiria livre para sempre.
Eu sentia que Jesus me pedia para perdoar. Mas isso parecia estar além das minhas forças. Houve uma luta em mim em relação a esse perdão. Eu iria dá-lo ou recusá-lo? Eu pensava que perdoá-lo não mudaria nada para mim, não apagaria o que eu tinha vivido. Então, para quê? Mas, se eu o recusasse, estaria uma vez mais fechando a porta do meu coração ao amor de Jesus. Ele não nos pediu para perdoar os nossos inimigos? Por outro lado, recusando-me a dar esse perdão, eu sabia que estaria “mantendo” no pecado, longe de Deus, esse moço que me agredira. Mas eu continuava evitando... Então, levei tudo isso para a oração, pedindo uma só coisa: que eu fosse verdadeira ao conceder esse perdão. Que ele fosse realmente o desejo do meu coração e a vontade do Senhor. Eu também me confiei à Mãe do Céu, pedindo-Ihe para tornar o meu coração dócil ao espírito de Jesus.
Um belo dia, pude colher esse perdão como uma flor que acaba de desabrochar, e oferecê-lo a Jesus no sacramento da reconciliação. Uma paz imensa invadiu-me. É verdade que não foi um passe de mágica que me fez esquecer tudo que eu vivera; mas, oferecendo esse perdão, tudo foi transformado. Eu quero assegurar-lhe que foi o Senhor, por sua graça, que me permitiu dar-Ihe o perdão. Sem Ele meu coração nunca teria consentido em perdoar. Eu sou tão pobre...
Eis as maravilhas do amor do Senhor. Você não acha que ele ultrapassa tudo o que podemos imaginar? Você não acha que ele está sempre ao nosso alcance? Que vale a pena percorrer com ele um trecho do caminho para conhecê-lo melhor?
Eis o mais belo milagre do Senhor: “Ele transforma em estrelas os seus pontos negros... se você lhe dá um pouco do seu coração!”.

Transcrito de: Ange, Daniel. Teu corpo feito para o amor.
São Paulo: Loyola, 1995, pp. 184-189.

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